domingo, 16 de novembro de 2025

Por que sociedades não escolhem sempre a prosperidade?

 A prosperidade econômica não é resultado automático das escolhas das sociedades, pois depende diretamente das instituições políticas e econômicas que moldam os incentivos e distribuem o poder. Embora pareça lógico imaginar que todos os governantes desejariam construir países mais ricos, muitas elites resistem às mudanças que tornam a economia mais dinâmica. Isso ocorre porque o desenvolvimento implica processos de inovação que ameaçam estruturas de privilégio. Como afirma o texto, “o crescimento econômico e a mudança tecnológica são acompanhados do que Schumpeter chamou de ‘destruição criativa’: substituem o velho pelo novo”. Essa renovação constante pode gerar ganhos para a sociedade como um todo, mas representa perdas para grupos que vivem do controle de setores ultrapassados ou da exploração direta da população.

A oposição ao progresso não se baseia em ignorância, mas em interesses. Mudanças econômicas redistribuem poder, e muitos grupos temem perder sua posição privilegiada. Por isso, historicamente, elites políticas e econômicas têm bloqueado transformações que criariam sociedades mais inclusivas. O caso do Congo ilustra de forma extrema como instituições extrativistas podem impedir a prosperidade por séculos. O texto aponta que ali vigorava uma estrutura em que “o próprio governo representava a maior ameaça aos direitos humanos e de propriedade de seus súditos”. Em condições assim, cidadãos não têm incentivo para investir, estudar ou empreender, pois tudo pode ser confiscado pela elite dominante.

É possível crescer sob instituições extrativistas?

Mesmo quando instituições extrativistas conseguem gerar crescimento, esse avanço é limitado e instável. Alguns regimes autoritários podem, por certo tempo, direcionar recursos para setores específicos e estimular crescimento controlado, como ocorreu na União Soviética ou na Coreia do Sul sob governos militares. Contudo, esse desenvolvimento não se sustenta quando o sistema político continua bloqueando a inovação ampla e dificultando a destruição criativa. Por isso, segundo o texto, “mesmo durante o acelerado crescimento econômico soviético verificou-se pouca mudança tecnológica”, e o modelo acabou colapsando.

O caso do Congo: um exemplo extremo

O Congo ilustra de maneira dramática como instituições extrativistas podem se perpetuar por séculos. Durante o período pré-colonial, o país já possuía estruturas de poder que permitiam ao rei e à elite confiscar riqueza, controlar o comércio e explorar a população. Com a colonização europeia, esse modelo não só continuou como se intensificou.

Após a independência, líderes como Mobutu mantiveram o mesmo padrão: enriqueceram pessoalmente enquanto a população empobrecia. A falta de centralização política eficaz, os conflitos internos e a disputa constante pelo controle do Estado impediram qualquer chance de construção de instituições que favorecessem o desenvolvimento.

O Congo demonstra que sem direitos de propriedade, sem segurança jurídica e sem um Estado capaz de prestar serviços básicos, a prosperidade não tem como florescer.

Além disso, regimes extrativistas tendem à instabilidade interna. A concentração de poder e riqueza gera disputas constantes entre grupos rivais, cada qual tentando controlar o Estado para explorar os demais. Isso explica por que, como descreve o trecho, conflitos recorrentes podem levar “ao total colapso e desmanche do Estado”. Em países onde não há centralização política sólida, como muitas regiões da África subsaariana, criar prosperidade é ainda mais difícil.

Assim, a razão pela qual sociedades não optam sempre pela prosperidade está no fato de que instituições inclusivas ameaçam aqueles que detêm poder concentrado. Para esses grupos, permitir crescimento amplo significa reduzir sua capacidade de controle. Dessa forma, como afirma o autor, “os grupos poderosos em geral se opõem ao progresso econômico”, porque têm mais a perder do que a ganhar com a abertura política e a democratização das oportunidades econômicas.

Em síntese, a prosperidade depende de instituições que distribuam poder, garantam direitos e estimulem a participação social. Onde isso não ocorre, não é por desconhecimento das vantagens do crescimento, mas porque privilegiados bloqueiam mudanças que fortaleceriam a sociedade, mas enfraqueceriam seu domínio.

ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

sábado, 1 de novembro de 2025

A Educação do Negro segundo Carter G. Woodson: Crítica, Consciência e Emancipação

 

Introdução

A educação tem sido um dos principais instrumentos de libertação e transformação social. No entanto, segundo Carter G. Woodson, o sistema educacional norte-americano do início do século XX foi usado como uma ferramenta de alienação e submissão dos afrodescendentes. Em sua obra “The Mis-Education of the Negro” (1933), Woodson analisa como a educação imposta ao negro foi estruturada para perpetuar a dependência cultural, econômica e intelectual. Essa reflexão mantém-se atual, especialmente em contextos onde o ensino ainda reforça hierarquias raciais e nega a valorização da identidade africana.

Desenvolvimento

Carter G. Woodson, considerado o “Pai da História Negra”, argumenta que a educação tradicional ensinava o negro a desprezar a própria história e cultura, condicionando-o à subordinação. Ele afirma que “se você pode controlar o pensamento de um homem, não precisa se preocupar com suas ações” (WOODSON, 1933, p. 84). Essa citação direta revela a crítica central do autor: a alienação mental como mecanismo de dominação.

De forma indireta, Woodson defende que o sistema educacional reproduz a ideologia do opressor, moldando o negro a aceitar uma posição inferior na sociedade. O autor denuncia que a escola não foi desenhada para emancipar o negro, mas para ajustá-lo ao sistema de exploração e dependência (WOODSON, 1933). A educação, portanto, torna-se um instrumento de perpetuação da desigualdade.

Outro ponto fundamental levantado por Woodson é a ausência de conteúdos que valorizem a experiência africana e afro-americana. Ele observa que “a escola ensina o negro a olhar para a sua própria raça com desprezo” (WOODSON, 1933, p. 44). Essa visão eurocêntrica conduz o indivíduo negro a uma crise de identidade e a uma rejeição de suas raízes culturais.

Assim, Woodson propõe uma reeducação consciente, baseada na valorização da história africana e na promoção do orgulho racial. Para ele, a verdadeira educação é aquela que liberta o espírito humano e capacita o indivíduo a pensar criticamente sobre sua realidade. Essa visão continua inspirando movimentos de educação afrocentrada e descolonização curricular em várias partes do mundo, inclusive em África e Moçambique.

Conclusão

A crítica de Carter G. Woodson à “má-educação do negro” continua relevante no debate contemporâneo sobre a descolonização do saber. Sua obra alerta que uma educação sem identidade é uma forma de escravidão mental. Reeducar, nesse sentido, significa reconstruir a autoestima, o pensamento crítico e o protagonismo do negro na história. Portanto, pensar a educação do negro hoje é continuar a luta por uma formação libertadora, baseada na valorização da cultura, da memória e da dignidade africana.

Referências Bibliográficas

  • WOODSON, Carter G. The Mis-Education of the Negro. Washington, D.C.: Associated Publishers, 1933.

  • NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

  • GOMES, Nilma Lino. Educação e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

domingo, 17 de agosto de 2025

A nação que não aposta na sua juventude está destinada ao fracasso

 Juventude e Inovação: O Futuro de Moçambique Está em Nossas Mãos.

Introdução

Moçambique é um país jovem. Mais de metade da população tem menos de 25 anos, o que representa não apenas um desafio, mas também uma grande oportunidade. A juventude carrega consigo a energia, a criatividade e a capacidade de imaginar novas formas de construir o futuro. No entanto, o potencial dos jovens só se transforma em realidade quando há espaço para inovação, educação e participação ativa na sociedade.

O futuro de Moçambique não está distante: ele começa agora, Enquanto a cleptocracia prevalecer, o progresso ficará fora do nosso alcance. 

A Juventude Moçambicana e os Desafios Atuais

Apesar de ser numerosa, a juventude enfrenta obstáculos que limitam o seu desenvolvimento pleno. A qualidade do ensino ainda é desigual entre as regiões, muitos jovens abandonam a escola antes de concluir os estudos, e a formação técnica ou superior nem sempre corresponde às exigências do mercado de trabalho.

Outro desafio central é o desemprego. Muitos jovens terminam os estudos e encontram poucas oportunidades, o que gera frustração e aumenta as desigualdades sociais. Além disso, a exclusão digital ainda é uma barreira: sem acesso à internet e às novas tecnologias, grande parte da juventude fica impedida de competir em pé de igualdade no mundo globalizado.

Ainda assim, esses desafios não são motivo para desistir, mas sim para despertar a vontade de inovar.

O Papel da Inovação

Inovação não significa apenas grandes invenções tecnológicas. Inovar é criar soluções novas para problemas antigos. É pensar diferente, usar os recursos disponíveis de forma criativa e melhorar a vida das comunidades. Em Moçambique, a juventude tem mostrado capacidade de inovação em várias áreas. Surgem startups criadas por jovens que desenvolvem aplicativos para facilitar entregas, melhorar a gestão agrícola ou até promover a recolha de lixo inteligente. Outros jovens estão a usar as redes sociais para educar, mobilizar e inspirar. A inovação é, portanto, a chave para transformar os desafios em oportunidades e para construir uma economia mais sustentável, inclusiva e moderna.

Oportunidades para os Jovens

Mesmo diante das dificuldades, existem caminhos que os jovens podem seguir para fazer a diferença:

  • Educação e formação: Investir nos estudos, seja na universidade, em cursos técnicos ou até no autoaprendizado online, é a base para qualquer inovação.

  • Empreendedorismo: Criar pequenos negócios e cooperativas pode ser uma forma de gerar emprego e renda.

  • Tecnologia: Usar a internet como ferramenta de aprendizagem, comunicação e empreendedorismo.

  • Participação comunitária: Projetos sociais, culturais e ambientais liderados por jovens têm impacto direto nas comunidades locais.

As oportunidades existem, mas é preciso iniciativa, disciplina e visão de futuro. A cleptocracia é um obstáculo que nos impede de avançar.

O Futuro Está em Nossas Mãos

O futuro de Moçambique depende da coragem e da criatividade da sua juventude. Cada jovem é chamado a acreditar em si mesmo, a usar o conhecimento como arma de transformação e a agir de forma responsável.A juventude é o presente, mas também é o caminho para um futuro de esperança. Se cada jovem assumir o compromisso de estudar, inovar e contribuir para o bem coletivo, Moçambique poderá avançar para uma nação mais justa, próspera e sustentável.

O futuro não é algo distante  ele começa agora, e está em nossas mãos. Com líderes que roubam o país, não há futuro promissor


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Kakistocracy, Kleptocracy and Democracy: Competing Paths in the Present and Future


Introduction: When Governments Reflect the Opposite of the People

We live in a time when strange words have become more familiar: kakistocracy, kleptocracy, and, of course, democracy. These three terms help us understand the paths countries take, especially in times of crisis, corruption, and institutional distrust. This article offers a critical reflection on these three forms of government, with special focus on Mozambique and other African nations where the democratic future is still under construction.

Kakistocracy: When the Worst Rise to Power

The word kakistocracy comes from Greek and literally means “government by the worst.” It’s no exaggeration: it refers to a system where the most incompetent, corrupt, or morally bankrupt individuals end up in leadership. In moments of political disillusionment, the people, seduced by populist speeches and easy solutions, often elect leaders who lack vision, training, and who promote hate or simplistic rhetoric. As Charles Taylor (2019) reminds us, kakistocracy arises when ethics and competence are no longer the criteria for leadership, replaced by personal interests and partisan loyalty. The outcome is predictable: mismanagement, institutional decay, and social regression.

Kleptocracy: When the Government Becomes a Theft Machine

Kleptocracy is the stage where corruption becomes institutionalized. It is the “rule of thieves,” where leaders use power to enrich themselves illegally, divert public funds, exploit natural resources, and stash fortunes in offshore accounts. According to the Kleptocracy Initiative (2020), this form of government doesn’t just steal the people’s present—it builds a system that protects itself and is hard to dismantle.

Transparency International (2023) shows how kleptocracy destroys public services, drives away investment, and deepens inequality. The most dangerous part? Often it happens within "democratic" frameworks — through manipulated elections and co-opted justice systems.

Democracy in Crisis: Freedom Not Guaranteed

Democracy, idealized as the regime of freedom, participation, and accountability, is under threat. Not always from military coups like in the past, but through slow and internal erosion. Authors like Levitsky and Ziblatt (2018) warn that democracies die when elected leaders weaken institutions, target opponents, and change the rules to stay in power. Amartya Sen (1999) emphasizes that democracy only survives when dissenting voices are protected and institutions remain truly independent.

🇲🇿 Mozambique: Between Hope and Danger

Mozambique is a living example of this crossroads. After decades of struggle, civil war, and peace agreements, the country strives to consolidate a functional democracy. However, scandals like the hidden debts case, inefficient governance, and signs of nepotism reveal real risks.

Mozambique’s educated and connected youth play a crucial role. But they must break from the practices of kleptocracy and kakistocracy by demanding quality education, transparency, and genuine civic participation.

Conclusion: The Choice is Ours

Kleptocracy steals our resources. Kakistocracy destroys our hope. Democracy, with all its flaws, remains our best chance to secure freedom, justice, and sustainable development.

As Larry Diamond (2008) notes, democracy requires constant vigilance, strong institutions, and ethical leadership. And this will only be possible if civil society especially the youth takes the lead in transforming the country.

Reflect, comment and share:
What do you think is the biggest threat to democracy in Mozambique today? We leave the question with you, reader of História do Futuro.


Entre a Democracia, a Kakistocracia e a Cleptocracia: o Futuro da Governança em Sociedades em Crise

 Kakistocracia, Cleptocracia e Democracia: Três Caminhos em Disputa pelo Poder

Em tempos de instabilidade política e crise institucional, crescem os debates sobre os tipos de governo que têm surgido ou se degradado em diversos países. Termos como kakistocracia e cleptocracia passaram a circular com mais frequência, sobretudo em contextos onde a democracia parece ameaçada ou corroída internamente. Mas o que significam essas formas de governo e como se relacionam com a ideia de democracia? Este artigo propõe uma reflexão sobre essas três realidades políticas, destacando suas interações e implicações sociais.

A Kakistocracia: O Governo dos Piores

O termo "kakistocracia" tem origem grega, derivando das palavras kakistos (o pior) e kratos (governo). Refere-se, portanto, à dominação política exercida pelos menos capacitados, mais corruptos ou moralmente falidos. Como observou o cientista político Charles Taylor, a kakistocracia se manifesta em sistemas onde a competência e a ética não são critérios para a ascensão ao poder, sendo substituídos pelo populismo, nepotismo e clientelismo (Taylor, 2019).

O conceito de kakistocracia, ainda pouco utilizado fora dos círculos acadêmicos, refere-se a um sistema governado pelos "piores" – os menos qualificados, os mais despreparados e, muitas vezes, os mais populistas. Essa forma de governo, conforme observado por estudiosos do pensamento político, emerge em contextos de crise institucional, onde as estruturas tradicionais perdem legitimidade e a população, desencantada, acaba por eleger ou aceitar líderes cuja única virtude é a retórica inflamada e simplificadora (cf. Taylor, 2019). A ascensão de governantes sem formação, com discurso anti-intelectual e foco no apelo emocional ao invés de propostas concretas, é sintoma clássico desse modelo.

Esse tipo de governo tende a degradar as instituições públicas, enfraquecendo os mecanismos de fiscalização e de meritocracia. Os danos são visíveis: políticas públicas mal formuladas, decisões improvisadas e destruição de capacidades estatais. A má liderança, segundo autores como Levitsky e Ziblatt (2018), é um dos sinais de alerta para a morte lenta da democracia.

Cleptocracia: O Governo dos Ladrões

A cleptocracia, por sua vez, é o regime onde os governantes usam o poder para enriquecer pessoalmente, apropriando-se de recursos públicos. É uma forma de corrupção sistemática e institucionalizada. A Kleptocracy Initiative (2020) revela como regimes cleptocráticos se beneficiam de redes financeiras internacionais para ocultar fortunas, geralmente obtidas através de contratos fraudulentos, desvio de verbas e exploração de bens naturais.

A cleptocracia vai além da corrupção pontual: ela constitui uma lógica de governo. Como aponta a Transparency International (2023), países com altos níveis de cleptocracia sofrem com a evasão de capitais, serviços públicos degradados e desigualdade extrema. Em muitos casos, a cleptocracia opera de forma silenciosa dentro de democracias formais, mascarando-se com eleições manipuladas e discurso populista.

Democracia em Crise: Entre a Resistência e a Captura

A democracia, definida por Amartya Sen (1999) como o espaço institucional que garante liberdade política, participação e responsabilização dos governantes, tem sido desafiada tanto pela kakistocracia quanto pela cleptocracia. Em contextos democráticos frágeis, essas duas ameaças frequentemente se combinam, gerando regimes híbridos ou autoritários disfarçados.

Em How Democracies Die, os autores argumentam que as democracias não caem apenas por golpes militares, mas por erosão interna quando líderes eleitos minam, aos poucos, os pesos e contrapesos institucionais, perseguem opositores e instrumentalizam a justiça. Nesses ambientes, a cleptocracia floresce, e a kakistocracia se consolida como norma.

Moçambique: Entre a Esperança Democrática e os Riscos Sistêmicos

Moçambique, como muitos países em desenvolvimento, enfrenta o desafio de consolidar uma democracia real diante de pressões internas e externas. Após uma longa guerra civil e múltiplos ciclos eleitorais, o país busca estabilidade política e crescimento. No entanto, denúncias de corrupção sistêmica, escândalos financeiros como as dívidas ocultas, e uma administração pública frequentemente marcada por ineficiência levantam preocupações legítimas.

A juventude moçambicana, majoritariamente alfabetizada em português e muitas vezes sem acesso a oportunidades justas de ascensão social, tem o potencial de transformar o país. Mas, para isso, é necessário romper com práticas kakistocráticas e cleptocráticas, apostando na educação, na transparência e na participação cidadã.

Conclusão: O Futuro em Disputa

A luta entre democracia, cleptocracia e kakistocracia é, em essência, uma disputa pelo tipo de sociedade que se quer construir. Enquanto a cleptocracia rouba o presente, e a kakistocracia compromete o futuro, a democracia embora imperfeita continua sendo o caminho mais viável para a construção de sociedades justas, livres e desenvolvidas.

Conforme afirmou Larry Diamond (2008), a democracia exige vigilância constante, instituições fortes e uma cultura política que valorize a integridade. Cabe aos cidadãos e às lideranças honestas resistirem aos impulsos autocráticos e construírem uma nova ética do poder.

terça-feira, 29 de julho de 2025

O Único Deixado para Trás: Moçambique entre Vizinhos Anglófonos na África Oriental e Meridional

 

Um resumo das minhas pesquisas: para elaborá-lo, faço a mim mesmo a seguinte questãoMoçambique é o único lusófono cercado por países anglófonos. Isso é uma fraqueza ou a chave para liderar uma nova integração africana?

Introdução

Moçambique é um país singular na geopolítica da África Austral e Oriental. Banhado pelo Oceano Índico e estrategicamente localizado, compartilha fronteiras com seis países todos de expressão anglófona: África do Sul, Suazilândia (Eswatini), Zimbábue, Zâmbia, Maláui e Tanzânia. Moçambique, porém, fala português. Essa dissonância linguística e histórica não é mero acaso: é resultado de um processo colonial diferente, que o tornou o único lusófono da região e, de certo modo, o “único deixado para trás” em certos aspectos de integração e desenvolvimento regional.

A herança colonial: uma ilha lusófona em um mar britânico

Durante o século XIX, enquanto o Império Britânico consolidava seu domínio sobre vastas porções do sul e leste africano, Portugal manteve-se agarrado aos seus antigos enclaves no litoral moçambicano. A colonização portuguesa, marcada pela exploração tardia, fraca presença institucional e forte uso de companhias privadas (como a Companhia de Moçambique), contrastava com o modelo britânico, mais estruturado e com maior investimento em infraestrutura, educação e administração colonial.

Ao contrário dos seus vizinhos, que herdaram o inglês e modelos de governação britânicos, Moçambique emergiu da independência com um sistema inspirado pelo socialismo e pela luta armada uma influência vinda, não do Reino Unido, mas da URSS, da China e de movimentos pan-africanistas.

Isolamento linguístico e político após a independência

Com a independência em 1975, Moçambique adotou o português como língua oficial e se alinhou com os países do Bloco Socialista, enquanto seus vizinhos, já independentes, mantiveram laços com o Ocidente. Durante a Guerra Fria, isso contribuiu para um isolamento regional de Moçambique, agravado pela guerra civil (1977–1992), alimentada em parte por potências externas e por vizinhos como o apartheid sul-africano e a Rodésia (hoje Zimbábue).

Enquanto países como Botsuana, Zâmbia ou Tanzânia avançavam em estabilidade relativa e integração anglófona, Moçambique enfrentava destruição, deslocamentos em massa e uma crise humanitária prolongada.

Barreiras linguísticas e integração regional

Até hoje, o idioma português representa um desafio na integração com a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), onde o inglês domina as negociações, documentos e cooperação técnica. A maioria dos jovens moçambicanos é alfabetizada apenas em português, com pouca exposição ao inglês, dificultando a mobilidade acadêmica, comercial e política na região.

Em termos comerciais, Moçambique muitas vezes atua como corredor logístico (ex: Porto de Maputo para África do Sul e Suazilândia), mas não tem o mesmo nível de industrialização, exportação de tecnologia ou capital financeiro dos seus vizinhos anglófonos.

Moçambique: um elo ou uma barreira?

Apesar dos desafios, Moçambique tem potencial para ser um elo entre África Lusófona e Anglófona. A sua costa oferece acesso ao oceano para países sem litoral. Seus recursos naturais (gás, carvão, terras férteis) são estratégicos. E a sua população jovem, se bem formada, pode quebrar o ciclo de exclusão.

Nos últimos anos, o país tem se aproximado mais da SADC e da Commonwealth (onde entrou como membro observador), demonstrando vontade de superar o isolamento linguístico e histórico.

Conclusão: um futuro entre dois mundos

Moçambique carrega o peso de ser "o único deixado para trás" — não por inferioridade, mas por ter seguido um caminho solitário e desigual na história colonial e pós-colonial da região. Agora, cabe à sociedade moçambicana transformar essa condição em força: preservando sua identidade lusófona, mas abrindo-se ao multilinguismo, à diplomacia regional e à integração econômica.

O passado explica o isolamento; o presente exige superação. O futuro pode, enfim, colocar Moçambique no centro — não nas margens — da África Austral e Oriental.

Se queremos alcançar uma verdadeira independência económica, precisamos questionar: o que significa fazermos fronteira com países anglófonos, e como isso pode ser uma oportunidade?

segunda-feira, 28 de julho de 2025

🇲🇿 A Liderança que Falta ao Governo Moçambicano

 Subtítulo: Entre discursos políticos e a realidade do povo, o país continua à espera de uma liderança transformadora e comprometida com o bem comum.

Moçambique é um país rico em recursos naturais, diversidade cultural, juventude e esperança. No entanto, apesar desse potencial evidente, o desenvolvimento é lento e desigual. O povo continua a viver na pobreza, a sofrer com a corrupção, o desemprego e a falta de oportunidades. E a grande pergunta permanece: que tipo de liderança temos e qual nos falta?

A ausência de uma liderança verdadeira

Muitos líderes políticos moçambicanos falam de progresso, mas governam para interesses próprios. Falta uma liderança transformadora, que escute, respeite e sirva com humildade. Falta presença no terreno, onde os problemas reais do povo se vivem.

A liderança que falta é aquela que caminha a pé pelas aldeias, que sente a dor da juventude sem emprego, que valoriza a mulher camponesa, que olha nos olhos do povo e age com justiça.

Discursos não alimentam o povo

O que mais se vê é uma liderança distante da realidade, que vive de promessas vazias e discursos repetidos. Grandes obras são anunciadas na televisão, mas os hospitais continuam sem medicamentos, as escolas sem carteiras e as famílias sem água potável.

Enquanto isso, a juventude sonha com um futuro melhor que tarda em chegar.

Precisamos de ética e inclusão

Falta uma liderança ética e transparente, que mostre onde vai o dinheiro público. O povo quer prestação de contas. Quer justiça. Quer líderes que dão exemplo e não apenas ordens.

Também é urgente uma liderança inclusiva, que envolva mulheres, jovens, camponeses e trabalhadores informais nas decisões que afetam suas vidas. Não se constrói uma nação ignorando a maioria.

Olhar para o futuro, não só para as eleições

O país precisa de liderança com visão de futuro. Que pense Moçambique para além do próximo mandato, e que invista seriamente na educação, na agricultura sustentável, na energia limpa e no mundo digital.

O povo moçambicano é forte, trabalhador e resiliente. O que falta não é força é liderança com coragem, verdade e compromisso.

O Dia da Mulher Moçambicana: História, Significado e Desafios Contemporâneos

O Dia da Mulher Moçambicana, celebrado a 7 de Abril, constitui um marco histórico que simboliza a luta pela emancipação feminina e a partici...