domingo, 16 de novembro de 2025

Por que sociedades não escolhem sempre a prosperidade?

 A prosperidade econômica não é resultado automático das escolhas das sociedades, pois depende diretamente das instituições políticas e econômicas que moldam os incentivos e distribuem o poder. Embora pareça lógico imaginar que todos os governantes desejariam construir países mais ricos, muitas elites resistem às mudanças que tornam a economia mais dinâmica. Isso ocorre porque o desenvolvimento implica processos de inovação que ameaçam estruturas de privilégio. Como afirma o texto, “o crescimento econômico e a mudança tecnológica são acompanhados do que Schumpeter chamou de ‘destruição criativa’: substituem o velho pelo novo”. Essa renovação constante pode gerar ganhos para a sociedade como um todo, mas representa perdas para grupos que vivem do controle de setores ultrapassados ou da exploração direta da população.

A oposição ao progresso não se baseia em ignorância, mas em interesses. Mudanças econômicas redistribuem poder, e muitos grupos temem perder sua posição privilegiada. Por isso, historicamente, elites políticas e econômicas têm bloqueado transformações que criariam sociedades mais inclusivas. O caso do Congo ilustra de forma extrema como instituições extrativistas podem impedir a prosperidade por séculos. O texto aponta que ali vigorava uma estrutura em que “o próprio governo representava a maior ameaça aos direitos humanos e de propriedade de seus súditos”. Em condições assim, cidadãos não têm incentivo para investir, estudar ou empreender, pois tudo pode ser confiscado pela elite dominante.

É possível crescer sob instituições extrativistas?

Mesmo quando instituições extrativistas conseguem gerar crescimento, esse avanço é limitado e instável. Alguns regimes autoritários podem, por certo tempo, direcionar recursos para setores específicos e estimular crescimento controlado, como ocorreu na União Soviética ou na Coreia do Sul sob governos militares. Contudo, esse desenvolvimento não se sustenta quando o sistema político continua bloqueando a inovação ampla e dificultando a destruição criativa. Por isso, segundo o texto, “mesmo durante o acelerado crescimento econômico soviético verificou-se pouca mudança tecnológica”, e o modelo acabou colapsando.

O caso do Congo: um exemplo extremo

O Congo ilustra de maneira dramática como instituições extrativistas podem se perpetuar por séculos. Durante o período pré-colonial, o país já possuía estruturas de poder que permitiam ao rei e à elite confiscar riqueza, controlar o comércio e explorar a população. Com a colonização europeia, esse modelo não só continuou como se intensificou.

Após a independência, líderes como Mobutu mantiveram o mesmo padrão: enriqueceram pessoalmente enquanto a população empobrecia. A falta de centralização política eficaz, os conflitos internos e a disputa constante pelo controle do Estado impediram qualquer chance de construção de instituições que favorecessem o desenvolvimento.

O Congo demonstra que sem direitos de propriedade, sem segurança jurídica e sem um Estado capaz de prestar serviços básicos, a prosperidade não tem como florescer.

Além disso, regimes extrativistas tendem à instabilidade interna. A concentração de poder e riqueza gera disputas constantes entre grupos rivais, cada qual tentando controlar o Estado para explorar os demais. Isso explica por que, como descreve o trecho, conflitos recorrentes podem levar “ao total colapso e desmanche do Estado”. Em países onde não há centralização política sólida, como muitas regiões da África subsaariana, criar prosperidade é ainda mais difícil.

Assim, a razão pela qual sociedades não optam sempre pela prosperidade está no fato de que instituições inclusivas ameaçam aqueles que detêm poder concentrado. Para esses grupos, permitir crescimento amplo significa reduzir sua capacidade de controle. Dessa forma, como afirma o autor, “os grupos poderosos em geral se opõem ao progresso econômico”, porque têm mais a perder do que a ganhar com a abertura política e a democratização das oportunidades econômicas.

Em síntese, a prosperidade depende de instituições que distribuam poder, garantam direitos e estimulem a participação social. Onde isso não ocorre, não é por desconhecimento das vantagens do crescimento, mas porque privilegiados bloqueiam mudanças que fortaleceriam a sociedade, mas enfraqueceriam seu domínio.

ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

sábado, 1 de novembro de 2025

A Educação do Negro segundo Carter G. Woodson: Crítica, Consciência e Emancipação

 

Introdução

A educação tem sido um dos principais instrumentos de libertação e transformação social. No entanto, segundo Carter G. Woodson, o sistema educacional norte-americano do início do século XX foi usado como uma ferramenta de alienação e submissão dos afrodescendentes. Em sua obra “The Mis-Education of the Negro” (1933), Woodson analisa como a educação imposta ao negro foi estruturada para perpetuar a dependência cultural, econômica e intelectual. Essa reflexão mantém-se atual, especialmente em contextos onde o ensino ainda reforça hierarquias raciais e nega a valorização da identidade africana.

Desenvolvimento

Carter G. Woodson, considerado o “Pai da História Negra”, argumenta que a educação tradicional ensinava o negro a desprezar a própria história e cultura, condicionando-o à subordinação. Ele afirma que “se você pode controlar o pensamento de um homem, não precisa se preocupar com suas ações” (WOODSON, 1933, p. 84). Essa citação direta revela a crítica central do autor: a alienação mental como mecanismo de dominação.

De forma indireta, Woodson defende que o sistema educacional reproduz a ideologia do opressor, moldando o negro a aceitar uma posição inferior na sociedade. O autor denuncia que a escola não foi desenhada para emancipar o negro, mas para ajustá-lo ao sistema de exploração e dependência (WOODSON, 1933). A educação, portanto, torna-se um instrumento de perpetuação da desigualdade.

Outro ponto fundamental levantado por Woodson é a ausência de conteúdos que valorizem a experiência africana e afro-americana. Ele observa que “a escola ensina o negro a olhar para a sua própria raça com desprezo” (WOODSON, 1933, p. 44). Essa visão eurocêntrica conduz o indivíduo negro a uma crise de identidade e a uma rejeição de suas raízes culturais.

Assim, Woodson propõe uma reeducação consciente, baseada na valorização da história africana e na promoção do orgulho racial. Para ele, a verdadeira educação é aquela que liberta o espírito humano e capacita o indivíduo a pensar criticamente sobre sua realidade. Essa visão continua inspirando movimentos de educação afrocentrada e descolonização curricular em várias partes do mundo, inclusive em África e Moçambique.

Conclusão

A crítica de Carter G. Woodson à “má-educação do negro” continua relevante no debate contemporâneo sobre a descolonização do saber. Sua obra alerta que uma educação sem identidade é uma forma de escravidão mental. Reeducar, nesse sentido, significa reconstruir a autoestima, o pensamento crítico e o protagonismo do negro na história. Portanto, pensar a educação do negro hoje é continuar a luta por uma formação libertadora, baseada na valorização da cultura, da memória e da dignidade africana.

Referências Bibliográficas

  • WOODSON, Carter G. The Mis-Education of the Negro. Washington, D.C.: Associated Publishers, 1933.

  • NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

  • GOMES, Nilma Lino. Educação e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

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